Na preguiça de fazer alguma coisa, me peguei pensando sobre a preguiça. Tão ordinária ela, fadiga até pensamento. Mesmo anestesiado pela rotina, ela ainda dá um jeito de se infiltrar, se espalhar. Vocês vão me desculpar, mas a preguiça é como câncer. Se espalha pelo corpo, toma conta do ser, deixa resquícios. E o pior é que não tem cura, mas o melhor é que não se morre dela. Preguiça impregna, contagia. Passa descaradamente de pai pra filho, de neto pra vô, do cachorro pro seu dono, enfim, não respeita sexo, idade, raça, religião, classe social, criatura. Bem, pelo menos a preguiça não tem preconceito. Gente pobre tem preguiça, madame da high society também tem preguiça, até indigente, mesmo em sua eterna condição de indigência, anestesiado pela fome, com o vazio que lhe rói a barriga e o pensamento, tem preguiça. Mas a madame da high society, em sua esporádica preguiça, é morta de chique, está 'descansando a pele', alguns diriam. E o indigente, em sua preguiça, o que seria? Vagabundo, marginal, desocupado, viciado, bêbado, um qualquer: muitos diriam, todos diriam. Ainda há de se inventar um remédio pra essa doença.

